Para aprovar reforma da PrevidĂȘncia paulista, base de Doria âcancela democraciaâ
- Assessoria Tatto
- 25 de nov. de 2019
- 5 min de leitura
EC 18/2019 prevĂȘ mais tempo de trabalho e benefĂcios menores para servidores estaduais
Publicado por Rodrigo Gomes, Da RBA 25/11/2019 14:52

SĂŁo Paulo â A reforma da PrevidĂȘncia estadual proposta pelo governador paulista, JoĂŁo Doria (PSDB) Ă© considerada pelos servidores estaduais como mais cruel que o texto aprovado no Congresso Nacional. E, para garantir a aprovação do texto, a base do governo na Assembleia Legislativa resolveu discutir o projeto a portas fechadas, sem acesso de servidores, da imprensa e atĂ© de assessores dos parlamentares. Cinco convocaçÔes de congresso de comissĂ”es â manobra utilizada para acelerar a tramitação de um projeto fazendo uma sĂł anĂĄlise do texto, em vez de passar por trĂȘs comissĂ”es de mĂ©rito â foram tentadas hoje (25), no SalĂŁo Nobre â e nĂŁo nos plenĂĄrios â, com a PolĂcia Militar barrando o acesso ao local.
No entanto, a oposição a Doria conseguiu obstruir as reuniĂ”es, que foram canceladas por falta de quĂłrum. Ainda hoje, o presidente da SĂŁo Paulo PrevidĂȘncia (SPPrev), JosĂ© Roberto de Moraes, vai Ă Assembleia explicar pontos da reforma com os deputados. E, Ă s 19h, outra tentativa de congresso de comissĂ”es estĂĄ marcada. âConseguimos esvaziar o congresso de comissĂ”es e vamos permanecer mobilizados contra essa proposta. Ă um texto que consegue ser mais cruel que a reforma da previdĂȘncia aprovada no Congresso Nacional. NĂŁo entendo essa pressa em aprovar esse projeto, jĂĄ que o Congresso estĂĄ discutindo a aplicação da reforma nos estados (a chamada PEC Paralela)â, disse o lĂder do PT na Assembleia Legislativa, deputado TeonĂlio Barba.
A Proposta de Emenda Ă Constituição (PEC) 18/2019, que estabelece a reforma da previdĂȘncia, aumenta o tempo serviço e o valor da contribuição, reduz os benefĂcios pagos a aposentados e pensionistas, e praticamente elimina o adicional pago aos aposentados que continuarem trabalhando. Para aprovar a PEC, Doria precisa do apoio de trĂȘs quintos dos deputados estaduais, ou 57 dos 94 parlamentares. O governo tem pressa e a base do tucano estĂĄ acelerando o processo na Assembleia Legislativa. O texto foi apresentado hĂĄ 10 dias e os deputados da base de Doria se articulam para votĂĄ-la ainda esta semana, sem discutir amplamente o projeto.
âĂ muita injustiça uma reforma obrigar os servidores a trabalhar mais, pagar mais impostos e ter salĂĄrios mais baixos. O governador precisa considerar a situação dessas pessoas e nĂŁo tratar os trabalhadores como nĂșmeros. AlĂ©m disso, o Doria e seus aliados precisam respeitar a democracia. Ă inadmissĂvel que um projeto dessa envergadura ser votado Ă s portas fechadas, sem ser discutido com a população, sem cobertura da imprensa e atĂ© o acompanhamento da assessoria dos parlamentaresâ, afirmou o deputado EmĂdio de Souza, membro da ComissĂŁo de Constituição e Justiça (CCJ).
De acordo com a PEC, a alĂquota de contribuição obrigatĂłria dos servidores ao regime de aposentadorias serĂĄ elevada de 11% para 14%. Estudos feitos pela assessoria da deputada Professora Bebel (PT), indicam que essa mudança vai levar a um aumento de 27,3% no valor que serĂĄ retirado dos salĂĄrios dos servidores. Um trabalhador com salĂĄrio mensal de R$ 2.585, atualmente contribui com 11% para a SPPrev, ou R$ 284,30. Com a reforma, passarĂĄ a pagar R$ 361,90 â R$ 77,55 a menos no valor do holerite. A regra vale para todos os servidores, independentemente da função.
Na regra atual, sĂŁo necessĂĄrios 60 anos para homens e 55 anos para mulheres, com 35 anos e 30 anos de contribuição. respectivamente. Com a reforma de Doria, a idade mĂnima exigida dos servidores serĂĄ de 65 anos para homens e de 62 para mulheres, com tempo mĂnimo de contribuição de 25 anos, sendo 10 no serviço pĂșblico e 5 no mesmo cargo em que irĂĄ se aposentar. Para obter a aposentadoria integral, portanto, seriam necessĂĄrios 40 anos de trabalho. Doria pretende economizar R$ 32 bilhĂ”es, em 10 anos, com a reforma da previdĂȘncia.
O texto do governo estadual estabelece ainda que, ao se aposentar pela idade mĂnima, o trabalhador terĂĄ acesso ao equivalente a 60% do valor do que era seu salĂĄrio na ativa. A cada ano a mais trabalhado, apĂłs a idade mĂnima, o servidor obtĂ©m mais 2 pontos percentuais, que se acumulam atĂ© alcançar os 100%.
Confisco e paralisação
O Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de SĂŁo Paulo (Apeoesp) vai realizar uma assembleia amanhĂŁ (26), para definir se a categoria entra em greve contra a reforma proposta por Doria. âCaso seja aprovada, nĂłs teremos 3% de nossos salĂĄrios confiscados, jĂĄ que nossa alĂquota de contribuição aumentarĂĄ de 11% para 14%. Ganhamos pouco, nĂŁo temos reajuste e o governo quer tirar mais de nĂłsâ, apontou a deputada estadual e presidenta da entidade, Professora Bebel. De acordo com ela, os professores estĂŁo mobilizados contra um âataque duplo do governo Doriaâ, que tambĂ©m quer implementar, sem diĂĄlogo, uma nova carreira para o magistĂ©rio.
A presidenta do Sindicato dos Trabalhadores PĂșblicos da SaĂșde no Estado de SĂŁo Paulo (SindSaĂșde), Cleonice Ribeiro, destacou que a reforma Ă© mais prejudicial Ă s mulheres, que representam 78% dos servidores pĂșblicos da saĂșde e vĂŁo ter que trabalhar sete anos Ă mais. âAs trabalhadoras estĂŁo revoltadas. NĂŁo tem acordo. Estamos jĂĄ em uma situação de baixos salĂĄrios, retirada de direitos, agora este novo golpe. Os servidores da saĂșde ganham pouco, alĂ©m disso nĂŁo tĂȘm o mĂnimo de material ou equipamento para exercer sua função adequadamente, tornando o trabalho ainda mais difĂcil e estressanteâ, afirmou.
FĂĄbio CĂ©sar Ferreira, o JabĂĄ, presidente do Sindicato dos FuncionĂĄrios do Sistema Prisional do Estado de SĂŁo Paulo (Sifuspesp), tambĂ©m criticou a falta de diĂĄlogo e de humanidade do governo Doria. Segundo JabĂĄ, a categoria Ă© uma das que mais sofre com afastamentos por problemas de saĂșde mental e mortes precoces. âEssa reforma da PrevidĂȘncia vem para acabar de enterrar o servidor. No sistema prisional nĂłs temos quase 30% da categoria afastada por doenças mentais, estresse, depressĂŁo. E agora com essa reforma, muitos companheiros estĂŁo desesperados. E o governo aqui nĂŁo quer negociar. Enquanto em BrasĂlia demorou 11 meses para discussĂŁo, aqui eles querem aprovar em 15 diasâ, afirmou.
Para quem estĂĄ perto de se aposentar, a PEC prevĂȘ uma regra de transição pela qual os trabalhadores que tiverem a partir de 28 anos de contribuição, no caso das mulheres, e 33 anos, no caso dos homens, vĂŁo ter que trabalhar por metade do tempo que faltaria para obter o benefĂcio. No caso de quem se aposentar e desejar continuar trabalhando, a PEC desobriga o governo paulista a pagar o abono de permanĂȘncia, definindo que o benefĂcio âpodeâ ser pago.
As pensĂ”es devidas a dependentes de servidores tambĂ©m serĂŁo drasticamente reduzidas. Atualmente, cĂŽnjuge e filhos menores de 18 anos recebem 100% do salĂĄrio do servidor falecido, sendo metade desse valor ao primeiro e a outra metade dividida entre os descendentes. Quando estes atingem a maioridade, os proventos passam a ser direcionados integralmente ao cĂŽnjuge. Com a reforma de Doria, a pensĂŁo seria igual a 50% da aposentadoria do servidor, paga como cota familiar, e atĂ© mais cinco cotas de 10% cada, variando conforme o nĂșmero de dependentes. Mas se o cĂŽnjuge nĂŁo tiver filhos, terĂĄ acesso somente a 60% do total dos proventos, sendo 50% dessa cota familiar e mais 10% de sua cota pessoal.
REGISTRADO EM: GOVERNO DORIA, JOĂO DORIA, PEC 18/2019, PSDB, REFORMA DA PREVIDĂNCIA




